Pro inferno com as lembranças

A porta da garagem desceu pela última vez quando tudo ainda estava escuro. Um último suspiro na calçada e você lembra de toda a nova mobília não usada onde seus livros mais antigos ficaram; lembra dos discos surrados na prateleira de metal encontrada no meio da rua e olha o relógio que mostra 5 minutos para a eternidade – você para a direita e eu morro acima.

Nós saímos da juventude conscientes como toda a nossa geração. Buscando a saída na negação e a transformação na nossa própria expressão. Mas isso nunca foi o bastante e nós mudamos de cidade em busca de uma solução. Parece que tudo o que nós fazemos é pensando como alguém que está prestes a partir: sempre tentando mudar, mas só mudando de lugar. Eu ainda lembro do primeiro sorriso que você me deu – ainda uso ele para disfarçar a solidão – e recordo dos nossos últimos encontros por conta do acaso: uma esbarrada no corredor da universidade e você sentando ao meu lado dentro de um ônibus. Lembro dos seus olhos se chocando contra os meus e de todas as minhas estúpidas questões sobre como lidar com você. Eu não suportava nosso silêncio, então assobiava desafinadamente uma canção qualquer, esperando alguma novidade sobre algum desconforto diário seu.

Agora me diga como converter as terças mais nubladas em domingos ensolarados e porque eu ainda sinto falta do que não aconteceu. Me diga porque nunca seremos completos e porque eu ainda sinto saudades de você.  Já que não posso.

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