Pro inferno com as lembranças

A porta da garagem desceu pela última vez quando tudo ainda estava escuro. Um último suspiro na calçada e você lembra de toda a nova mobília não usada onde seus livros mais antigos ficaram; lembra dos discos surrados na prateleira de metal encontrada no meio da rua e olha o relógio que mostra 5 minutos para a eternidade – você para a direita e eu morro acima.

Nós saímos da juventude conscientes como toda a nossa geração. Buscando a saída na negação e a transformação na nossa própria expressão. Mas isso nunca foi o bastante e nós mudamos de cidade em busca de uma solução. Parece que tudo o que nós fazemos é pensando como alguém que está prestes a partir: sempre tentando mudar, mas só mudando de lugar. Eu ainda lembro do primeiro sorriso que você me deu – ainda uso ele para disfarçar a solidão – e recordo dos nossos últimos encontros por conta do acaso: uma esbarrada no corredor da universidade e você sentando ao meu lado dentro de um ônibus. Lembro dos seus olhos se chocando contra os meus e de todas as minhas estúpidas questões sobre como lidar com você. Eu não suportava nosso silêncio, então assobiava desafinadamente uma canção qualquer, esperando alguma novidade sobre algum desconforto diário seu.

Agora me diga como converter as terças mais nubladas em domingos ensolarados e porque eu ainda sinto falta do que não aconteceu. Me diga porque nunca seremos completos e porque eu ainda sinto saudades de você.  Já que não posso.

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Ponto final

Toda vez que uma luz é acesa, existe uma luz que é apagada em algum outro lugar. E em algum lugar alguém está voltando para ficar, em algum lugar alguém está fazendo planos para sair. Deixando para trás, dando adeus. Leve um sorriso como abrigo e deixe detalhes, como pregos afiados, perfurarem meus velhos pensamentos. A memória irá enferrujar-se e se desgastar em listas de tudo o que você me deu: uma camisa amarela enorme, um livro de um cavaleiro inexistente, um mapa do seu corpo, as melhores partes da solidão. O outono avança e o verão recua. Escreva, sob a fraca luz branca do ônibus, a sua lista de “Eu quis dizer”, recolha todas as suas cordas as quais você costumava amarrar suas dúvidas e enterre-as em algum ponto das duas horas de estrada que nos distanciavam. Uma história deixada para dissolver lá fora. Com a chuva.

Julho de 2009

Marchi

Carregou consigo um maço de baralho e fichas coloridas, um tabuleiro de xadrez e todas as intensas e minuciosas discussões sobre os menores e irrelevantes assuntos. Sua voz macia perguntando se tudo estava bem, sua voz fora do tom quando revoltado e seus fortes movimentos de desaprovação. Todas as discordâncias enfáticas com o máximo de certeza, mas mesmo assim, sempre aberto a ser convencido. Um livro de tirinhas do Calvin e Hobbes e uma linda mania estrondosa de resistir aquilo que lhe corroia por dentro. 6 anos divididos em pequenas batalhas internas e seriados de TV, rodas de samba e bloqueios de rua. 29 anos planejando devorar todas as estradas possíveis, e enfrentar todos obstáculos impossíveis. Uma última lembrança: a divisão de uma porção de batata frita, todas as idas e vindas do hospital e as entregas de móveis nos domingos. E mesmo indo, fica e inspira. Suas mudanças de humor, de mobílias e sociais. Eu achei que tivéssemos mais tempo, mas acontece assim, sem critério, sem uma estrutura narrativa, sem um enredo, sem uma explicação. E no cardápio, desistir nunca foi uma opção.

 

 

 

Em lembrança ao camarada Alex Marchi  (1979 – 2008)