Novembro, seja generoso

Não consigo contar quantas vezes você troca o anel de dedo em uma tarde. Do indicador direito pro anular esquerdo, numa freqüência incansável, em tempos cansativos. E escrito densamente, com letras minúsculas, se encontram nomes, números e palavras dentro de caixas de cigarros nunca fumados. Achadas nos cantos das esquinas em ruínas. Os maços de papel são sua própria memória. Todos nós carregamos essas coisas por dentro, coisas que nunca ninguém consegue perceber. Elas nos seguram como âncoras, elas nos jogam mar adentro. Estocamos alimentos e água para enfrentar a escassez, eles estocam idéias para lucrar. Um check point por um pão com margarina pela manhã, um colete e uma coragem para sair depois das três.

Na esteira do tempo, a cidade avança sobre a cidade; na colheita dos bens, eles avançam sobre o petróleo. Colecionamos os jornais das últimas semanas no chão da sala-de-estar – rumores e as eleições, palavras cruzadas e uma guerra interminável – eles sujam nossos dedos e pesam nossos pensamentos. Vamos deixar nosso péssimo dia aqui de lado, querida, e fazer de conta que somos fortes ou talvez contar pequenas estórias e piadas ruins sobre nossos vizinhos.

Tudo isso para dizer que nós estamos superando o olho do furacão mesmo com as luzes piscando. Logo estaremos sem energia, mas estaremos bem alimentados. E nós teremos assistido o canal do tempo mais do que deveria ser permitido em um período de 24 horas.

Julho 2011

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O peso do tempo

Mais uma noite qualquer de um domingo para esquecer. Deixa o tempo morrer no chão da sala, contando caixas e malas. Se perde entre preços e opções, a vontade não é compatível com o possível. O aluguel é tão caro: precisa escolher entre esse quarto e o desespero. As horas perdem sua elasticidade, você conta os segundos dos minutos e decora o alfabeto de trás para frente. Todo ano se repete: o prefeito pinta as ruas de preto e finge que é asfalto; o vento sul rasga em qualquer estação; verão com enchente; inverno doente.

Você não consegue salvar dinheiro ou convicção e aquelas músicas  amargas ouvidas todas as manhãs não vão melhorar em nada a sua situação. Deixar se amarrar em toda essa teia de perdas não irá abrir ruas de saída. Todo aquele esforço de cultivo da paciência vai por água abaixo e já passam das 4. Agora você conta as rachaduras da parede amarela pintada com as próprias mãos no último outono e percebe, numa caixa isolada, o que poderia ter te matado ao longo dos anos: um cartucho de bala, um copo quebrado, uma mangueira furada, um anel de casado e um sono surpresa.

Inverno de 2010