Pro inferno com as lembranças

A porta da garagem desceu pela última vez quando tudo ainda estava escuro. Um último suspiro na calçada e você lembra de toda a nova mobília não usada onde seus livros mais antigos ficaram; lembra dos discos surrados na prateleira de metal encontrada no meio da rua e olha o relógio que mostra 5 minutos para a eternidade – você para a direita e eu morro acima.

Nós saímos da juventude conscientes como toda a nossa geração. Buscando a saída na negação e a transformação na nossa própria expressão. Mas isso nunca foi o bastante e nós mudamos de cidade em busca de uma solução. Parece que tudo o que nós fazemos é pensando como alguém que está prestes a partir: sempre tentando mudar, mas só mudando de lugar. Eu ainda lembro do primeiro sorriso que você me deu – ainda uso ele para disfarçar a solidão – e recordo dos nossos últimos encontros por conta do acaso: uma esbarrada no corredor da universidade e você sentando ao meu lado dentro de um ônibus. Lembro dos seus olhos se chocando contra os meus e de todas as minhas estúpidas questões sobre como lidar com você. Eu não suportava nosso silêncio, então assobiava desafinadamente uma canção qualquer, esperando alguma novidade sobre algum desconforto diário seu.

Agora me diga como converter as terças mais nubladas em domingos ensolarados e porque eu ainda sinto falta do que não aconteceu. Me diga porque nunca seremos completos e porque eu ainda sinto saudades de você.  Já que não posso.

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Em março

Cada olhar me remete a um tumulto que brota do embate entre o que foi e o que está sendo. Onde todas as distâncias se parecem menores agora e a possibilidade de viver uma nova história em uma velha cidade urge numa virada de esquina. Lembro dos tempos em que tudo parecia muito grande e distante assim como minhas memórias daqueles dias. Agora, a beleza dessa cidade se apresenta marcada pela conversa entre morros e prédios, no encontro do asfalto e meus pensamentos; na mistura esquizofrênica de minhas lembranças vivas com as construções da minha imaginação. O presente é tomado de assalto pela irrefutável força de transformação do tempo – o prédio grudado na praça está fadado ao apodrecimento e a escola perto da igreja foi pintada. Aquilo que foi vivido se mostra, nesse exato momento, como um sonho ou um livro incorporado. Algo que nunca me aconteceu.

Mas as minhas palavras são provas do que vivi e do que estou vivendo. Minhas idéias são produto de pensamentos que sacodem meu mundo. Falar, é agir e pensar simultaneamente. É criar. Criar um mundo sobre nossos braços, onde milhares de velhos sonhos são aquecidos dia após dia sobre o calor de nossas vontades e desejos. Busco um sentido nas estações e acho padrões em grandes pensamentos.

Cada olhar, uma imagem; a representação de um relato fragmentado, habitado cada dia mais por esquecimentos do que por lembranças. Cada relance é insubstituível. Manufaturamos realidades e recordamos o perdido em fotografias, na separação do tempo vivido.