O peso do tempo

Mais uma noite qualquer de um domingo para esquecer. Deixa o tempo morrer no chão da sala, contando caixas e malas. Se perde entre preços e opções, a vontade não é compatível com o possível. O aluguel é tão caro: precisa escolher entre esse quarto e o desespero. As horas perdem sua elasticidade, você conta os segundos dos minutos e decora o alfabeto de trás para frente. Todo ano se repete: o prefeito pinta as ruas de preto e finge que é asfalto; o vento sul rasga em qualquer estação; verão com enchente; inverno doente.

Você não consegue salvar dinheiro ou convicção e aquelas músicas  amargas ouvidas todas as manhãs não vão melhorar em nada a sua situação. Deixar se amarrar em toda essa teia de perdas não irá abrir ruas de saída. Todo aquele esforço de cultivo da paciência vai por água abaixo e já passam das 4. Agora você conta as rachaduras da parede amarela pintada com as próprias mãos no último outono e percebe, numa caixa isolada, o que poderia ter te matado ao longo dos anos: um cartucho de bala, um copo quebrado, uma mangueira furada, um anel de casado e um sono surpresa.

Inverno de 2010

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Ponto final

Toda vez que uma luz é acesa, existe uma luz que é apagada em algum outro lugar. E em algum lugar alguém está voltando para ficar, em algum lugar alguém está fazendo planos para sair. Deixando para trás, dando adeus. Leve um sorriso como abrigo e deixe detalhes, como pregos afiados, perfurarem meus velhos pensamentos. A memória irá enferrujar-se e se desgastar em listas de tudo o que você me deu: uma camisa amarela enorme, um livro de um cavaleiro inexistente, um mapa do seu corpo, as melhores partes da solidão. O outono avança e o verão recua. Escreva, sob a fraca luz branca do ônibus, a sua lista de “Eu quis dizer”, recolha todas as suas cordas as quais você costumava amarrar suas dúvidas e enterre-as em algum ponto das duas horas de estrada que nos distanciavam. Uma história deixada para dissolver lá fora. Com a chuva.

Julho de 2009

De volta

Há sempre um ritmo para a nossa direção. Para todas as chegadas e partidas, para todas as palavras ditas. Eu estou de volta às ruas que conheço, às ruas que nunca me levaram a lugar nenhum, além daqui. Ah, não deixe o tempo te enganar, eu nunca consegui, uma vez sequer, conquistá-lo. Ele está mais lento com as noites mais compridas. Eu espero o ano afundar. Matando o tempo, matando a esperança. As tarifas do  transporte coletivo crescem mais rápido do que minha paciência. Novas palavras para antigos desejos e um novo nome para todas as coisas. Um suspiro para o sossego e uma coletânea de canções sobre estranhos e delicados momentos – esquecidos e perdidos. Vividos aqui.

Maio de 2009

Marchi

Carregou consigo um maço de baralho e fichas coloridas, um tabuleiro de xadrez e todas as intensas e minuciosas discussões sobre os menores e irrelevantes assuntos. Sua voz macia perguntando se tudo estava bem, sua voz fora do tom quando revoltado e seus fortes movimentos de desaprovação. Todas as discordâncias enfáticas com o máximo de certeza, mas mesmo assim, sempre aberto a ser convencido. Um livro de tirinhas do Calvin e Hobbes e uma linda mania estrondosa de resistir aquilo que lhe corroia por dentro. 6 anos divididos em pequenas batalhas internas e seriados de TV, rodas de samba e bloqueios de rua. 29 anos planejando devorar todas as estradas possíveis, e enfrentar todos obstáculos impossíveis. Uma última lembrança: a divisão de uma porção de batata frita, todas as idas e vindas do hospital e as entregas de móveis nos domingos. E mesmo indo, fica e inspira. Suas mudanças de humor, de mobílias e sociais. Eu achei que tivéssemos mais tempo, mas acontece assim, sem critério, sem uma estrutura narrativa, sem um enredo, sem uma explicação. E no cardápio, desistir nunca foi uma opção.

 

 

 

Em lembrança ao camarada Alex Marchi  (1979 – 2008)

Em março

Cada olhar me remete a um tumulto que brota do embate entre o que foi e o que está sendo. Onde todas as distâncias se parecem menores agora e a possibilidade de viver uma nova história em uma velha cidade urge numa virada de esquina. Lembro dos tempos em que tudo parecia muito grande e distante assim como minhas memórias daqueles dias. Agora, a beleza dessa cidade se apresenta marcada pela conversa entre morros e prédios, no encontro do asfalto e meus pensamentos; na mistura esquizofrênica de minhas lembranças vivas com as construções da minha imaginação. O presente é tomado de assalto pela irrefutável força de transformação do tempo – o prédio grudado na praça está fadado ao apodrecimento e a escola perto da igreja foi pintada. Aquilo que foi vivido se mostra, nesse exato momento, como um sonho ou um livro incorporado. Algo que nunca me aconteceu.

Mas as minhas palavras são provas do que vivi e do que estou vivendo. Minhas idéias são produto de pensamentos que sacodem meu mundo. Falar, é agir e pensar simultaneamente. É criar. Criar um mundo sobre nossos braços, onde milhares de velhos sonhos são aquecidos dia após dia sobre o calor de nossas vontades e desejos. Busco um sentido nas estações e acho padrões em grandes pensamentos.

Cada olhar, uma imagem; a representação de um relato fragmentado, habitado cada dia mais por esquecimentos do que por lembranças. Cada relance é insubstituível. Manufaturamos realidades e recordamos o perdido em fotografias, na separação do tempo vivido.

Rápidas anotações a respeito da necessidade de uma análise crítica sobre as cidades

A primeira coisa que me veio à mente foi de escrever algo com as idéias que eu tinha sobre o funcionamento das cidades, das suas relações, de como elas nos afetam emocionalmente e como isso se reflete no cotidiano. Eu acredito intensamente que, para se entender como vivemos, é imprescindível compreender como nos relacionamos com a cidade e com a política do dia-a-dia da vida. Entendermos como ela funciona e seus aspectos mais subjetivos – as entrelinhas, os segredos.

Todo segredo é explosivo e se intensifica em seu próprio calor interno. A cidade é um emaranhando de lugares e espaços que despertam lembranças, desejos, significados, segredos. A paixão pelos segredos urge quando se percebe um imenso mapa em nossas mentes sobre cada lugar, cada esquina, cada rua que passamos, que vivemos. É quando tudo indica tudo e uma avenida não é apenas uma avenida e sim uma combinação de histórias e relações secretas, de idéias e espaços que nos moldam através do tempo. É quando os olhos não enxergam mais a forma dos objetos e espaços, mas sim figuras deles, que acabam por dar novos significados aos mesmos. Figuras em que cada lugar tem uma função e raramente pensamos nela. Por que os lugares são como são e quem se beneficia deles? Qual o verdadeiro motivo da construção de grandes e largas avenidas e da destruição dos becos?

A cidade, como os sonhos, é feita por desejos e medos. Sua imagem é enganosa. Suas regras, absurdas. Seu discurso, um mistério. Seu passado não nos é contado, ela o tem como traços do rosto, escrito nas curvas das vielas, nas ruas sem-saída, em cada entalhe, em cada desgaste. Ela é feita de infinitas dicotomias. Podemos dividi-la em duas ao perceber que com o passar dos anos e de suas mutações ela continua a moldar os desejos e ao mesmo tempo os desejos conseguem molda-la. Ou ainda geograficamente, com a grande divisão entre asfalto e morro. A cidade é um jogo ambíguo, onde somos jogadores e jogadoras e, ao mesmo tempo, peças. A sobreposição das histórias e mitos de um lugar é uma das conseqüências da coexistência de papéis entre os personagens do cotidiano e isso inclui eu e você. Que em cada momento do dia podemos representar um papel diferente com uma história diferente, sendo vários em um corpo só.

O olhar corre os labirintos como se fossem páginas escritas – a cidade nos diz tudo o que devemos pensar e repetimos inconscientemente o discurso que nos enche de tédio. Ela em si é redundante, se repete para formar uma imagem. Nossa memória também é redundante, repete as imagens para que a cidade exista. Quase todo dia fazemos o mesmo trajeto de deslocamento dentro da região em que (sobre)vivemos e nunca caímos em nós e nos perguntamos por que diabos caminhamos pelas mesmas ruas e fazemos sempre os mesmos atalhos ou paramos sempre em tal e tal lugar. Ou nunca paramos para notar como uma repentina mudança de ambiente numa mesma rua influencia a nossa mudança de trajeto ou como o caráter inconsciente de atração ou repulsão de certos espaços realmente existe. A idéia da produção de um mapa de sensações da cidade ou região em que moramos convém com a idéia de compreender onde vivemos, nossos próprios desejos e pode fazer parte da difícil tarefa de dar sentido à vida.

Historicamente toda forma de urbanização vem com o intuito de manter a ordem naquela região. A cidade, então, se torna um meio de regulação social, um instrumento de opressão, tanto física como psicológica e também emocional. O urbanismo aparece como uma política de organização do espaço-tempo a qual não leva em consideração as vontades das pessoas, sua implementação é imposta sempre por um grupo que atua em benefício daqueles que detém o Poder na hierarquia social econômica da cidade. Assim, é impossível a libertação total das pessoas sem que elas possam participar do processo de destruição e construção do local onde elas vivem.

A idéia da participação efetiva das pessoas em todas as esferas da vida cotidiana está conectada com a idéia de emancipação total delas. Onde o interesse público se sobressai perante o interesse privado e onde elas têm poder para guiar seus próprios destinos.

Inverno de 2006

 

Escrito para o zine Mau Humor de Joinville, SC.

Do passado

 Nessas horas em que a mente está cheia e sente-se uma pressão na nuca, nessas horas em que os pensamentos são como faíscas e as palavras brotam mais rápido do que você possa compreende-las, nessas horas… nessas horas é que a intensidade do momento pode nos permitir botar tudo em uma folha de papel ou talvez somente criarmos mais perguntas para as nossas incertezas e ficarmos perdidos. A rapidez dos momentos mostra a nossa capacidade de vive-los, às vezes o que foi devagar para mim, pode ter sido muito ligeiro para você. E muitas vezes quanto mais rápido tudo passa, menos entendemos o que há para ser descoberto, o que há para ser aproveitado. O último toque é dado pelo esquecimento e só sobrará o que a memória me emprestar quando esses dias se forem. Então, antes que tudo se vá, me conte, como é a sensação de sabermos que aquilo que mais queremos vai dar certo? Longe de mim poder lembrar dela. Porém, nesses momentos que ninguém percebe, é que se alimenta a secreta linha axial do nosso destino. As falhas, as rachaduras, podem se fechar ou até cair no esquecimento; mas por dentro continuará ardendo e incomodando.

  Pelos becos escuros e pelas grandes avenidas, a minha voz vai atrás do que minhas mãos já não podem alcançar e onde eu estou é onde você sempre poderá me encontrar; no limite de tudo. Onde todas as cores podem vir a brilhar intensamente e onde só o que há é o agora. Todas as ruas têm o mesmo nome, todas se chamam Tédio. Numa cidade onde cada pessoa pode ser um porto seguro ou talvez um naufrágio, é provável que, todos os encontros e desencontros sejam culpa do revolto destino que nós tentamos dominar. E tudo o que eu posso ter são memórias de amores perdidos.

Eu posso percorrer a avenida da Revolta e desaguar na esquina do Fracasso. Correr até o beco da Desolação e me perder no morro do Coração. Posso pedalar pelas ruas da contradição, navegar pelos mares da memória, e caminhar pelo fogo do esquecimento. Ou talvez correr das horas e recortar os segundos. Refogar os pensamentos ou incendiar as palavras. Mas é no momento presente em que merealizo, é no movimento do cotidiano em que me permito caminhar em direção ao cadafalso e sentir o gosto dos dias, sentir as saudades me pressionando contra a sólida parede do passado.

Em um mundo invertido, a verdade é um momento do que é falso. Então, o sentimento se esvai, a palavra é gasta e o discurso intoxicado. Por um milésimo não há sentido a mudança e não há diálogo senão a violência em doses pequenas. O dinheiro nunca vai medir o valor das nossas vontades e um centímetro nunca irá medir o tamanho de nossas angústias. O passado se prolonga como destruição do passado e a pergunta que permanece é aquela que questiona sobre o que restou. Onde tudo se tornou tão em vão e todo mundo me pergunta por que eu me tornei tão amargo.

Verão de 2007