Sobre Yuri

O velho hábito de apontar o que é diferente num deserto padronizado e o que é igual num oceano de diferenças.

Algo que eu esqueci de te falar

Bata na porta para eu saber que você ainda está aí, ao meu redor, ouvindo sem querer conversas alheias e querendo mudar o mundo. Eu pensei que talvez você quisesse me visitar um dia. Talvez você quisesse ouvir como o silêncio desses gigantescos espaços vazios me apavora ou como sair de casa foi mais como se esconder do mundo. Se me pedissem uma data para voltar ao passado, eu diria: “Antes dos meus erros”. Mas eu nem sei o que é certo ou o que é errado, então pra mim tanto faz. Às vezes a melhor opção é esquecer, é deixar de lado, é jogar fora. Aí talvez só as melhores partes permaneçam. Ou não. Tanto faz. Às vezes parece que tudo o que tenho é só o que minha memória recorda. Parece que o máximo que eu tenho para te oferecer não oferece muito e não há outro lugar para estar, senão aqui, nesse silencioso pedaço de asfalto, onde o sol do meio-dia encontra o cheiro do concreto e da grama cortada. Sumir não é saída. Talvez eu ainda te encontre em algum dos nossos lugares preferidos, de maneira inesperada, como sempre foi. Talvez você me puxe de volta para onde eu nunca deveria ter saído e tudo vai fazer sentido.

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A quem possa interessar

Pegue seu caderno de notas, uma câmera fotográfica e uma garrafa d’agua. Enterre no jardim da sua casa seu livro sobre as políticas da solidão e as expedições no Ártico. Leve todas as tardes de domingo gastas em estacionamentos vazios revirando os classificados e toda uma vida numa cidade pequena para pequenas vidas. Você nunca imaginou que esse dia fosse chegar. Mais uma história deixada de lado pelos livros de História, sobre como vidas são esmagadas e varridas para debaixo do tapete. A quem possa interessar.

Leve a cesta de ansiolítico e aspirina, ou só palavras para matar mais uma entediante noite de um sábado morto, ela diz adeus e até logo. Adeus as 12 horas de trabalho por dia e a sorrisos forçados. Adeus as pilhas de contas não pagas dobradas como seus vestidos, a todos os projetos não acabados, ao medo de qualquer término. Adeus a todas as dores no pescoço e no coração, adeus a todo não. Adeus aos 45 minutos perdidos rejeitando todas as razões para ficar. Tudo acontece por aqui, e de repente nada acontece por muito tempo. Acorde e arrume suas malas.

A quem possa interessar. O próximo trem é daqui há 20 minutos. Vagando por incertezas do coração ela diz adeus, sentada em cima da bagagem esperando pelo melhor destino.  Deixando vidas vazias, deixando vazias estações.

Algumas hipóteses

Digamos que você acorde um dia sem palavras. Elas não foram perdidas, foram tomadas. Arrancadas durante um pesadelo febril como aqueles que você tinha quando criança, por uma galinha gigante com cara de porco ou um homem sem cabeça com mãos de fogo. Você se desespera? Ou reinventa tudo calmamente? Vendo as nuvens desistirem da chuva, cheirando o café passado, coçando a casca de uma ferida cicatrizada, ouvindo a discografia da sua banda preferida, vivendo sem poder nomear e não sendo nomeado.

Digamos que você acorde um dia sem o seu corpo e você sinta falta das suas mãos como sente falta de um amigo que já morreu. Você ouve as músicas favoritas dele e se lembra de todos os 456 planos bolados e nenhum realizado. Faz um cartaz procurando seu coração com descrição, uma foto e um número de telefone. Encontra seus pulmões enterrados num jardim no fim da rua. Sem ar e cheios de areia.

Digamos que você acorde um dia sem o mundo. O mundo te trocou por outra pessoa, não retorna as suas ligações e passa por você na rua como se fosse um estranho. Tudo o que você consegue fazer é chorar, beber café gelado numa tigela de cereal e assistir televisão. As maratonas do National Geographic são especialmente cruéis: os caminhoneiros do gelo, os segredos das pirâmides, as obras incríveis da humanidade. Queimar mapas topográficos nunca te fez sentir melhor e colecionar fotos de bromélias nunca te deu soluções, mas você adora mesmo assim.

Digamos que você acorde um dia sem mim. Digamos que eu simplesmente sumisse e rastejasse de volta pro inferno que me cuspiu. Você organiza uma busca ou queima minhas cartas? O seu cérebro risca todas as palavras que eu usava constantemente? O seu corpo recorda do meu?

O som de junho

Eu sei, é difícil lidar com o silencioso desespero cultivado nas entranhas e refletido em náusea e vertigem. No meio do escuro nos perdemos na desesperança, mesmo sabendo que ela é passageira. Antes eu via nos seus olhos, não só todas as cores que neles habitam, mas como você compreende toda a solidão no lento movimento de qualquer velho relógio de parede ou nas pessoas cansadas com olhares pesados, mutiladas, por amor ou falta dele. Eu me via neles.

Agora eu me vejo e me perco em suas palavras, repetidas vezes repetidas, elas, em pedaços, são incorporadas naturalmente em mim. Existem palavras, de nosso conhecimento presente, que jamais serão usadas novamente, mas jamais serão esquecidas. Nós precisamos delas como a parte de trás de uma fotografia e eu sei que num futuro distante ou elas ressurgirão através de outros ou serão enterradas com nossos corpos.

No final das contas alguém sempre: precisa ser escolhido por último, precisa se machucar e precisa falhar. Só não queria mais que esse alguém fosse eu. Nem muito menos você. Se você diz que nunca sabe o que dizer, eu acho que eu sempre falo demais.

Pro inferno com as lembranças

A porta da garagem desceu pela última vez quando tudo ainda estava escuro. Um último suspiro na calçada e você lembra de toda a nova mobília não usada onde seus livros mais antigos ficaram; lembra dos discos surrados na prateleira de metal encontrada no meio da rua e olha o relógio que mostra 5 minutos para a eternidade – você para a direita e eu morro acima.

Nós saímos da juventude conscientes como toda a nossa geração. Buscando a saída na negação e a transformação na nossa própria expressão. Mas isso nunca foi o bastante e nós mudamos de cidade em busca de uma solução. Parece que tudo o que nós fazemos é pensando como alguém que está prestes a partir: sempre tentando mudar, mas só mudando de lugar. Eu ainda lembro do primeiro sorriso que você me deu – ainda uso ele para disfarçar a solidão – e recordo dos nossos últimos encontros por conta do acaso: uma esbarrada no corredor da universidade e você sentando ao meu lado dentro de um ônibus. Lembro dos seus olhos se chocando contra os meus e de todas as minhas estúpidas questões sobre como lidar com você. Eu não suportava nosso silêncio, então assobiava desafinadamente uma canção qualquer, esperando alguma novidade sobre algum desconforto diário seu.

Agora me diga como converter as terças mais nubladas em domingos ensolarados e porque eu ainda sinto falta do que não aconteceu. Me diga porque nunca seremos completos e porque eu ainda sinto saudades de você.  Já que não posso.

Bagagem

Mais uma vez eu me pego preso no impossível cruzamento entre me pôr em parênteses ou não. Há dias que passam por mim como cavalos ensandecidos e eu não consigo contê-los. O eterno binômio de perdas e ganhos se confunde com todos os detalhes que eu posso encontrar entre as sílabas pronunciadas e os seus lábios. Então eu mergulho perdido entre o leste da minha juventude e o oeste do meu futuro, vendo todas as calçadas sombrias e sonolentas me guiarem para largas e vazias estradas suburbanas. Todos os passageiros dormem em desgastados corredores de escassos meios de locomoção e anseiam por uma cama ou uma casa, nem que seja o próprio ponto de ônibus. Enquanto um ar quente denso sopra pela única plataforma dessa pequena-grande cidade, diversas multidões de jovens urbanos aguardam a vez para engolir rápidas vias de decadentes destinos. Um mapa para o meu exílio com um céu indecifrável, algumas mitologias escritas sobre o mesmo declive que leva a enormes castelos da mente e uma eterna leve sensação de vertigem.

Novembro, seja generoso

Não consigo contar quantas vezes você troca o anel de dedo em uma tarde. Do indicador direito pro anular esquerdo, numa freqüência incansável, em tempos cansativos. E escrito densamente, com letras minúsculas, se encontram nomes, números e palavras dentro de caixas de cigarros nunca fumados. Achadas nos cantos das esquinas em ruínas. Os maços de papel são sua própria memória. Todos nós carregamos essas coisas por dentro, coisas que nunca ninguém consegue perceber. Elas nos seguram como âncoras, elas nos jogam mar adentro. Estocamos alimentos e água para enfrentar a escassez, eles estocam idéias para lucrar. Um check point por um pão com margarina pela manhã, um colete e uma coragem para sair depois das três.

Na esteira do tempo, a cidade avança sobre a cidade; na colheita dos bens, eles avançam sobre o petróleo. Colecionamos os jornais das últimas semanas no chão da sala-de-estar – rumores e as eleições, palavras cruzadas e uma guerra interminável – eles sujam nossos dedos e pesam nossos pensamentos. Vamos deixar nosso péssimo dia aqui de lado, querida, e fazer de conta que somos fortes ou talvez contar pequenas estórias e piadas ruins sobre nossos vizinhos.

Tudo isso para dizer que nós estamos superando o olho do furacão mesmo com as luzes piscando. Logo estaremos sem energia, mas estaremos bem alimentados. E nós teremos assistido o canal do tempo mais do que deveria ser permitido em um período de 24 horas.

Julho 2011