Novembro, seja generoso

Não consigo contar quantas vezes você troca o anel de dedo em uma tarde. Do indicador direito pro anular esquerdo, numa freqüência incansável, em tempos cansativos. E escrito densamente, com letras minúsculas, se encontram nomes, números e palavras dentro de caixas de cigarros nunca fumados. Achadas nos cantos das esquinas em ruínas. Os maços de papel são sua própria memória. Todos nós carregamos essas coisas por dentro, coisas que nunca ninguém consegue perceber. Elas nos seguram como âncoras, elas nos jogam mar adentro. Estocamos alimentos e água para enfrentar a escassez, eles estocam idéias para lucrar. Um check point por um pão com margarina pela manhã, um colete e uma coragem para sair depois das três.

Na esteira do tempo, a cidade avança sobre a cidade; na colheita dos bens, eles avançam sobre o petróleo. Colecionamos os jornais das últimas semanas no chão da sala-de-estar – rumores e as eleições, palavras cruzadas e uma guerra interminável – eles sujam nossos dedos e pesam nossos pensamentos. Vamos deixar nosso péssimo dia aqui de lado, querida, e fazer de conta que somos fortes ou talvez contar pequenas estórias e piadas ruins sobre nossos vizinhos.

Tudo isso para dizer que nós estamos superando o olho do furacão mesmo com as luzes piscando. Logo estaremos sem energia, mas estaremos bem alimentados. E nós teremos assistido o canal do tempo mais do que deveria ser permitido em um período de 24 horas.

Julho 2011

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