Pro inferno com as lembranças

A porta da garagem desceu pela última vez quando tudo ainda estava escuro. Um último suspiro na calçada e você lembra de toda a nova mobília não usada onde seus livros mais antigos ficaram; lembra dos discos surrados na prateleira de metal encontrada no meio da rua e olha o relógio que mostra 5 minutos para a eternidade – você para a direita e eu morro acima.

Nós saímos da juventude conscientes como toda a nossa geração. Buscando a saída na negação e a transformação na nossa própria expressão. Mas isso nunca foi o bastante e nós mudamos de cidade em busca de uma solução. Parece que tudo o que nós fazemos é pensando como alguém que está prestes a partir: sempre tentando mudar, mas só mudando de lugar. Eu ainda lembro do primeiro sorriso que você me deu – ainda uso ele para disfarçar a solidão – e recordo dos nossos últimos encontros por conta do acaso: uma esbarrada no corredor da universidade e você sentando ao meu lado dentro de um ônibus. Lembro dos seus olhos se chocando contra os meus e de todas as minhas estúpidas questões sobre como lidar com você. Eu não suportava nosso silêncio, então assobiava desafinadamente uma canção qualquer, esperando alguma novidade sobre algum desconforto diário seu.

Agora me diga como converter as terças mais nubladas em domingos ensolarados e porque eu ainda sinto falta do que não aconteceu. Me diga porque nunca seremos completos e porque eu ainda sinto saudades de você.  Já que não posso.

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Bagagem

Mais uma vez eu me pego preso no impossível cruzamento entre me pôr em parênteses ou não. Há dias que passam por mim como cavalos ensandecidos e eu não consigo contê-los. O eterno binômio de perdas e ganhos se confunde com todos os detalhes que eu posso encontrar entre as sílabas pronunciadas e os seus lábios. Então eu mergulho perdido entre o leste da minha juventude e o oeste do meu futuro, vendo todas as calçadas sombrias e sonolentas me guiarem para largas e vazias estradas suburbanas. Todos os passageiros dormem em desgastados corredores de escassos meios de locomoção e anseiam por uma cama ou uma casa, nem que seja o próprio ponto de ônibus. Enquanto um ar quente denso sopra pela única plataforma dessa pequena-grande cidade, diversas multidões de jovens urbanos aguardam a vez para engolir rápidas vias de decadentes destinos. Um mapa para o meu exílio com um céu indecifrável, algumas mitologias escritas sobre o mesmo declive que leva a enormes castelos da mente e uma eterna leve sensação de vertigem.

Novembro, seja generoso

Não consigo contar quantas vezes você troca o anel de dedo em uma tarde. Do indicador direito pro anular esquerdo, numa freqüência incansável, em tempos cansativos. E escrito densamente, com letras minúsculas, se encontram nomes, números e palavras dentro de caixas de cigarros nunca fumados. Achadas nos cantos das esquinas em ruínas. Os maços de papel são sua própria memória. Todos nós carregamos essas coisas por dentro, coisas que nunca ninguém consegue perceber. Elas nos seguram como âncoras, elas nos jogam mar adentro. Estocamos alimentos e água para enfrentar a escassez, eles estocam idéias para lucrar. Um check point por um pão com margarina pela manhã, um colete e uma coragem para sair depois das três.

Na esteira do tempo, a cidade avança sobre a cidade; na colheita dos bens, eles avançam sobre o petróleo. Colecionamos os jornais das últimas semanas no chão da sala-de-estar – rumores e as eleições, palavras cruzadas e uma guerra interminável – eles sujam nossos dedos e pesam nossos pensamentos. Vamos deixar nosso péssimo dia aqui de lado, querida, e fazer de conta que somos fortes ou talvez contar pequenas estórias e piadas ruins sobre nossos vizinhos.

Tudo isso para dizer que nós estamos superando o olho do furacão mesmo com as luzes piscando. Logo estaremos sem energia, mas estaremos bem alimentados. E nós teremos assistido o canal do tempo mais do que deveria ser permitido em um período de 24 horas.

Julho 2011

O peso do tempo

Mais uma noite qualquer de um domingo para esquecer. Deixa o tempo morrer no chão da sala, contando caixas e malas. Se perde entre preços e opções, a vontade não é compatível com o possível. O aluguel é tão caro: precisa escolher entre esse quarto e o desespero. As horas perdem sua elasticidade, você conta os segundos dos minutos e decora o alfabeto de trás para frente. Todo ano se repete: o prefeito pinta as ruas de preto e finge que é asfalto; o vento sul rasga em qualquer estação; verão com enchente; inverno doente.

Você não consegue salvar dinheiro ou convicção e aquelas músicas  amargas ouvidas todas as manhãs não vão melhorar em nada a sua situação. Deixar se amarrar em toda essa teia de perdas não irá abrir ruas de saída. Todo aquele esforço de cultivo da paciência vai por água abaixo e já passam das 4. Agora você conta as rachaduras da parede amarela pintada com as próprias mãos no último outono e percebe, numa caixa isolada, o que poderia ter te matado ao longo dos anos: um cartucho de bala, um copo quebrado, uma mangueira furada, um anel de casado e um sono surpresa.

Inverno de 2010

Ponto final

Toda vez que uma luz é acesa, existe uma luz que é apagada em algum outro lugar. E em algum lugar alguém está voltando para ficar, em algum lugar alguém está fazendo planos para sair. Deixando para trás, dando adeus. Leve um sorriso como abrigo e deixe detalhes, como pregos afiados, perfurarem meus velhos pensamentos. A memória irá enferrujar-se e se desgastar em listas de tudo o que você me deu: uma camisa amarela enorme, um livro de um cavaleiro inexistente, um mapa do seu corpo, as melhores partes da solidão. O outono avança e o verão recua. Escreva, sob a fraca luz branca do ônibus, a sua lista de “Eu quis dizer”, recolha todas as suas cordas as quais você costumava amarrar suas dúvidas e enterre-as em algum ponto das duas horas de estrada que nos distanciavam. Uma história deixada para dissolver lá fora. Com a chuva.

Julho de 2009

De volta

Há sempre um ritmo para a nossa direção. Para todas as chegadas e partidas, para todas as palavras ditas. Eu estou de volta às ruas que conheço, às ruas que nunca me levaram a lugar nenhum, além daqui. Ah, não deixe o tempo te enganar, eu nunca consegui, uma vez sequer, conquistá-lo. Ele está mais lento com as noites mais compridas. Eu espero o ano afundar. Matando o tempo, matando a esperança. As tarifas do  transporte coletivo crescem mais rápido do que minha paciência. Novas palavras para antigos desejos e um novo nome para todas as coisas. Um suspiro para o sossego e uma coletânea de canções sobre estranhos e delicados momentos – esquecidos e perdidos. Vividos aqui.

Maio de 2009

Marchi

Carregou consigo um maço de baralho e fichas coloridas, um tabuleiro de xadrez e todas as intensas e minuciosas discussões sobre os menores e irrelevantes assuntos. Sua voz macia perguntando se tudo estava bem, sua voz fora do tom quando revoltado e seus fortes movimentos de desaprovação. Todas as discordâncias enfáticas com o máximo de certeza, mas mesmo assim, sempre aberto a ser convencido. Um livro de tirinhas do Calvin e Hobbes e uma linda mania estrondosa de resistir aquilo que lhe corroia por dentro. 6 anos divididos em pequenas batalhas internas e seriados de TV, rodas de samba e bloqueios de rua. 29 anos planejando devorar todas as estradas possíveis, e enfrentar todos obstáculos impossíveis. Uma última lembrança: a divisão de uma porção de batata frita, todas as idas e vindas do hospital e as entregas de móveis nos domingos. E mesmo indo, fica e inspira. Suas mudanças de humor, de mobílias e sociais. Eu achei que tivéssemos mais tempo, mas acontece assim, sem critério, sem uma estrutura narrativa, sem um enredo, sem uma explicação. E no cardápio, desistir nunca foi uma opção.

 

 

 

Em lembrança ao camarada Alex Marchi  (1979 – 2008)